PASSAGENS
MARIA NAZARETH
O velho rio São João prossegue sua viagem...
As águas passam, passam apressadas,
e os barcos conduzem os homens
com suas redes e sonhos...
As águas passam, passam apressadas...
Marcam o tempo, a vida,
levam mágoas, tristezas,
levam minha solidão.
As águas passam, passam apressadas...
As águas traduzem magia e mistérios
e vão ao encontro do mar...
O velho rio São João prossegue sua viagem...
MOENDA
MARIA NAZARETH
Roda, roda
a moenda
o tempo...
Roda, roda
a moenda
a vida...
Os homens anônimos
labutam no dia a dia...
Roda, roda
a moenda
os sonhos
os amores
a vida...
Roda, roda
a moenda...
PAISAGEM
MARIA NAZARETH
Na praia as garças quebram o silêncio da manhã
meu olhar contempla o azul,
barcos deslizam sobre as águas...
Pescadores de histórias e sonhos.
Na praia as gaivotas quebram o silêncio da tarde
parecem compreender minha solidão,
as garças e as gaivotas bordam de alegria a tarde.
Na praia o silêncio... À noite
meu olhar contempla a lua,
as estrelas, o mar...
Pescadores de sonhos e fantasias
esperam o azul bordado de vida.
OPERÁRIO
MARIA NAZARETH
Acorda às quatro horas
madruga, madruga a vida
pega o trem
leva sonhos
leva desilusões.
O trem leva o suor
do operário
carrega sonhos dos oprimidos.
Meio-dia
almoço na marmita
olha o céu, as nuvens
espreita a moça
que passa faceira
e lembra a mulher
lavadeira, passadeira
que lava sonhos e suor.
À noite só resta a TV
preta e branca
João sonha
que virou patrão
e nega toda a exploração.
Acorda às quatro horas
madruga, madruga a vida.
CONTEMPLAÇÃO
MARIA NAZARETH
Vejo clarões desceram a terra
revestindo o céu de intensa luz
transcendendo a antiga criação.
Vejo raios cortarem o céu na escura noite
na ventania e na intensa chuva
e os homens perplexos diante da tempestade.
Vejo a fúria dos relâmpagos diante da tempestade,
vejo a fúria dos relâmpagos na escura noite
e os homens perplexos diante desse furor.
Vejo os relâmpagos cobrirem a terra
mesclando de fascínio e mistérios
a terra e a humanidade antigas.
Mas vejo Deus que suplanta a criação.
TIRADENTES
MARIA NAZARETHPara Sônia Peçanha
Vales e montanhas, templos naturais
testemunhas da luta pela liberdade...
Janelas coloniais, balcões repletos de gerânios.
Igrejas e oratórios testemunham a fé.
O tempo faz a História nas ruas de Tiradentes.
Memórias de um tempo tecido nas ladeiras,
nos telhados, no chafariz,
nos portais e sacadas.
O tempo faz a História nas ruas de Tiradentes.
Crianças sem dentes,
crianças do meu Brasil aplaudem: o Dia de Tiradentes.
Vales e montanhas, templos naturais
testemunhas da luta pela liberdade.
OS SEM-TERRA
MARIA NAZARETH
Caminham, caminham
descalços pelas campinas, pelas estradas
dormem em barracas na chuva, na ventania.
Os sem-terra soluçam sua sina
do norte ao sul do país.
A terra dos sem-terra é um sonho e utopia...
A terra dos sem-terra tira o sono
dos corações piedosos e desperta a ira
nos corações egoístas.
A terra dos sem-terra é prometida ao povo,
que não se arrefece dos sonhos...
INSPIRAÇÃO
MARIA NAZARETH
Minha poesia não tem rima
vem da alma, da realidade,
da natureza, do meu viver e dos sentimentos.
Minha poesia não tem rima
vem do meu olhar sobre os fatos, o tempo,
a natureza e a vida.
Minha poesia é a morada do meu ser,
como uma estrela distante e recôndita,
perdida nos matizes da constelação poética.
Minha poesia não tem rima
e me inspira
e te inspira.